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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarta-feira, 23 de novembro, se conclui o ciclo Rock in Natal com um encontro-show sobre o rock brasileiro

O projeto cultural Diálogos Criativos realizará na próxima quarta-feira, 23 de novembro, às 19:30 no Auditório da Livraria Siciliano (Midway Mall), em Natal, o quarto e último encontro-show do ciclo Rock in Natal, desta vez não só falado, mas também cantado em português: QUE PAÍS É ESSE? UMA PANORÂMICA DO ROCK BRASILEIRO.

Com entrada franca, o evento contará novamente com a participação e a apresentação ao vivo do rockeiro e historiador Ugo Monte, o músico Marco Navarro, o percussionista Marcel Dore e do guitarrista Guilherme Bezerra. A proposta é traçar uma panorâmica sócio-histórica do rock nacional nos conturbados e ao mesmo tempo efervescentes contextos sociais, políticos e culturais do Brasil na segunda metade do século XX, alternando a discussão com apresentações ao vivo de clássicos do gênero. O encontro, como de costume, será coordenado pelo idealizador e coordenador dos Diálogos Criativos.

Os Diálogos Criativos são uma iniciativa do jornalista, pesquisador, educador e promotor cultural Antonino Condorelli em parceria com a Livraria Siciliano, o Café Genot e a Faculdade de Excelência Educacional do Rio Grande do Norte (FATERN) e com o apóio editorial do Solto na Cidade, da Tribuna do Norte, da TV Universitária e da Universitária FM.

Clique aqui para ler o artigo introdutório escrito pero historiador e rockeiro amador Ugo Monte sobre o tema do encontro-show de quarta-feira, 23 de novembro.

domingo, 13 de novembro de 2011

Tempo perdido?

Uma panorâmica do rock brasileiro em vista do último encontro-show do ciclo Rock in Natal dos Diálogos Criativos, que acontecerá quarta-feira, 23 de novembro.

Ugo Monte - Historiador e rockeiro amador

Enquanto a febre do rock and roll tomava conta do mundo, no início da década de 60, o Brasil entrava na fase mais sombria de sua história recente. A ditadura militar calaria todas as vozes dissonantes. A música popular brasileira representava a piéce de resistance da consciência nacional, em oposição ao elitismo blasé da Bossa Nova e ao modismo alienante da Jovem Guarda. Enquanto, de um lado, Roberto Carlos e Wanderléa animavam as tardes de domingo com a versão brasileira da beatlemania; na contracorrente, Chico Buarque e Geraldo Vandré representavam os expoentes de uma geração, cuja liberdade de expressão foi asfixiada pela censura.

Triste memória dos anos de chumbo, em que Alegria, alegria foi vaiada pelo público jovem do Festival da Canção, quando Caetano Veloso foi acompanhado pela sonoridade elétrica dos Mutantes. “Vocês não entenderam nada”, a tropicália era a fusão entre o local e o global, o samba de roda de Santo Amaro da Purificação e a música psicodélica da Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Liverpool é aqui só que pouca gente sabia.

Sob a vigilância onipresente da repressão, quase todas as cabeças pensantes partiram para o exílio ou para a clandestinidade. Nos anos 70, o rock sofria tanto pela imposição do nacionalismo ufanista do regime quanto pelo patrulhamento ideológico da esquerda. No Brasil, a guitarra foi satanizada como instrumento ideológico capitalista, enquanto os hippies usavam flores para tentar parar a máquina de guerra na América. Paradoxalmente, tanto aqui quanto lá, rock and roll era sinônimo de subversão.

Apesar de todo protecionismo ideológico, a MPB não estava fechada pro mundo, ao contrário; como anunciavam os velhos “novos baianos”, muita gente bronzeada mostrou seu valor: o samba-rock de Jorge Ben tinha a levada de sua guitarra; a turma do clube da esquina se reunia para tocar Beatles e a música de Minas; O “pessoal do Ceará” se inspirava em Lennon e em Dylan; Os Secos e molhados assumiram a identidade Glam de Bowie; Guilherme Arantes e Flávio Venturini beberam na fonte de Keith Emerson e Rick Wakeman; Os Mutantes eram os nossos Stones e Raul cultuava Elvis, antes de se tornar o trovador solitário do rock brasileiro, parceiro lisérgico do bruxo/profeta Paulo Coelho. Enganam-se aqueles que se orgulham do purismo da MPB e acreditavam que o rock era apenas pauleira.

Foi só nos anos 80, no embalo do movimento pelas Diretas já, que o rock pôde definitivamente assumir sua identidade brasileira. No início era uma brincadeira “rock and roll meio nonsense” cujo berço foi o palco itinerante do Circo Voador e o espaço cedido no dial pela Fluminense FM. Ali nasceram Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha, Gang 90, João Penca, Paralamas, Lobão, Lulu e companhia. Nada de política, só diversão. Os censores de plantão ainda estavam na ativa, mas os tempos eram outros. Parecia ser só mais uma new wave, não era, a onda começou a virar.

O rock nacional só passou a se levar a sério, quando assimilou a inquietude verborrágica de Renato Russo, a voz politizada do Planato Central que abriu as portas das gravadoras cariocas para o rock made in Brasília. Canções críticas como Geração Coca-cola e angustiadas como Por enquanto não se enquadravam na fórmula das FMs. Ao invés do esquema escola-cinema-praia-televisão dos adolescentes da classe média, as letras de Renato Russo falavam de conflitos pessoais, medo de rejeição, insegurança, hipocrisia, liberdade e necessidade de auto-afirmação. Renato e sua trupe assumiram a estética e o discurso punk. O concreto já havia rachado e não sobraria pedra sobre pedra.

A história do rock será contada antes e depois da Turma da Colina. As linhas geométricas de Brasília traçaram os limites entre a inocência perdida e a maturidade da primeira geração, na história política desse país, a votar pra presidente e a derrubar um presidente eleito sem golpe de estado. Se ainda não conseguimos nos desvencilhar da cultura nefasta do jeitinho brasileiro e do círculo vicioso da corrupção e do clientelismo político, há pelo menos um avanço significativo de lá pra cá: hoje a gente pode falar o que pensa, na sala de aula, no trabalho, na esquina, na mídia ou na arte, apesar de tudo que está aí.

Durante muito tempo, como estudante de história, na Universidade de Brasília, alimentava uma racional “inveja” da consciência crítica da geração libertária que lutou contra a ditadura, em contraponto à alienação da minha geração. Vinte anos mais velho, compreendo que as coisas não são tão simples assim. Viver na clandestinidade sob constante ameaça da repressão não é pra qualquer um. A minha geração não teve que renunciar a nada, nem tinha grandes ideais pra defender, mas quando olho pra trás, vejo que ela teve um papel importante pra mudar as coisas. A convivência com a democracia nos tornou pais mais próximos dos nossos filhos, maridos mais companheiros, amigos mais solidários, estudantes, trabalhadores ou consumidores mais conscientes, enfim, nos tornamos um pouco mais cidadãos num país onde os excluídos ainda são a imensa maioria. Não foi tempo perdido, mas já não somos tão jovens... Difícil é imaginar que a geração que cresceu nos Carnatais da vida, ouvindo Chiclete com Banana e Asa de águia, seja capaz, um dia, de alcançar essa redenção.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quarta-feira, 28 de setembro, exploraremos e cantaremos o rock dos anos 1970

Artigo introduzindo o encontro-show dos Diálogos Criativos de quarta-feira, 28 de setembro, sobre os rock da década de 1970. O diálogo, o segundo do ciclo Rock in Natal, estará entremeado por apresentações ao vivo de clássicos daquela fase do gênero.

Ugo Monte - Rockeiro e historiador

Indagado sobre o anúncio do fim dos Beatles após o lançamento do álbum Let it be, de 1970, John Lennon foi taxativo: “O sonho acabou”. Não era apenas o fim do grupo mais importante da história do rock, em todos os tempos, era o fim de uma era. A utopia hippie da geração de Woodstock sucumbiu diante do choque de realidade e desencanto dos anos 70. Numa perspectiva política e pragmática, a Primavera de Praga foi esmagada pelo totalitarismo stalinista. A luta pela liberdade na América Latina foi derrotada pelo arrefecimento da repressão dos regimes militares no poder. As barricadas do Quartier Latin que uniram estudantes e operários em maio de 68 foram esfaceladas pela realpolitik gaullista e a mobilização dos jovens da América não conseguiu por fim à Guerra no Vietnã, nem evitar a derrota humilhante, tanto militar quanto moral. As atrocidades cometidas pelos blue caps no sudoeste asiático e a presença de milhares de veteranos mortos-vivos em solo americano assombrariam durante décadas a autoconfiança do Império. A crise do petróleo e a saída pelas portas do fundo do presidente Nixon da Casa Branca completavam o quadro de incerteza reinante nos novos tempos. No Velho Mundo, chegava ao fim o ciclo de crescimento econômico iniciado no pós-guerra, com a crise, viriam à tona as tensões sociais decorrentes da rígida hierarquia de classes do Reino Unido. A presença maciça de imigrantes vindos das antigas colônias européias, mão-de-obra fundamental para o reerguimento do continente nos tempos difíceis, tornar-se-ia um problema social persistente até os nossos dias, alimentado pelo choque de civilizações anunciado pelo 11 de setembro.

Apesar de tudo, a vida segue, como acreditava George Harrison, no seu mantra pessoal: The dream is over, but “All things must pass”. O som da Motown embalava o orgulho afro do Black is beautiful, demonstrando o poder da música negra. A era do virtuosismo dos verdadeiros heróis da guitarra como Clapton, Hendrix e Page fincava raízes no hard rock e abria caminho para o surgimento do heavy metal. Como herança da alquimia musical da experiência psicodélica, o Glam, o Prog e o Art Rock romperam a fronteira entre a música erudita e a cultura pop.

De alguma forma, todos entraram para o clube dos corações solitários do Sargento Pimenta, que iniciou o círculo virtuoso dos épicos álbuns da década de 70, não era apenas virtuose, era vanguardismo. Fama e fortuna não eram mais as ambições primordiais do rock, mas o reconhecimento dos seus pares, um lugar na história e o nirvana artístico: a atemporalidade. A década de 70 foi a era da extravagância e da cultura dos extremos; da febre da Disco e da fúria do Punk; da suavidade Folk e do peso do metal; do rebuscamento estilístico do Art Rock e do minimalismo pueril do rock de garagem; da era de ouro das Superbandas do Mainstream e do laboratório Underground, no submundo de Londres e NY; Ocultismo e mitologia de um lado, escárnio e crítica social do outro. Em nenhum outro momento a cena pop foi tão multicultural. Não era mais apenas rock and roll, como diziam os Stones, era muito mais que isso.

Depois da experiência de sexo, drogas e rock and roll, o mundo jamais seria o mesmo. Se hoje nós apreciamos um certo gosto de liberdade e criamos nossos filhos a partir de outros paradigmas, esse foi um legado daquela geração. Por outro lado, se hoje nos assombra os perigos da dependência química e do vício que ronda o mundo dos nossos jovens, também faz parte do espólio da mesma geração. Se os anos sessenta foram a promessa de um mundo ideal, os anos 70 foi o mundo real, com todas as suas idiossincracias e contradições. Foi a vida pós-morte da utopia iconoclasta da contracultura, em que nem sempre os finais são felizes, Live fast, die young, muitos pereceram ao longo do caminho, para os que viveram, há ainda muita história pra contar.

São essas e outras histórias que serão contadas no encontro de quarta-feira, 28, do projeto cultural Diálogos Criativos, que estreará a temporada do segundo semestre deste ano. O encontro, intitulado Let’s rock (1969-1979): Utopia, Desencanto e Fúria é o segundo do ciclo temático Rock in Natal, sobre a história deste gênero musical que mudou a história da cultura. O ciclo contará com mais dois encontros: um em outubro sobre o rock das décadas de 1980 e 1990 e outro em novembro sobre a história do rock brasileiro. Todos os encontros, facilitados por um historiador e vários músicos, entremearão a palestra histórica com apresentações ao vivo de clássicos do gênero. O evento de quarta-feira, com entrada franca, acontecerá às 19:30 no Auditório da Livraria Siciliano, no terceiro piso do Midway Mall.